A gente ganha o cliente e a agência pede desconto

Há algum tempo, uma agência brasileira me pediu um serviço, um daqueles apaga-fogos que parecem fazer parte do dia-a-dia de todos nós. Cotei preço, aceitaram, gostaram, voltaram com o pedido de revisão para outro texto. Aceitei por engano, porque não era a minha área e, além de tudo, era versão, que, de modo geral, tenho recusado. Quando me dei conta da besteira, já não tinha mais volta. Então, lá fomos a Kelli e eu fazer a revisão, meio que pisando em ovos.

Dias depois, me liga a agência, me dando os parabéns, celebrando o peixão que tinham pescado, porque o cliente tinha gostado do teste e aprovado o serviço. Vamos fazer? Bom, agora, não tem volta mesmo: vamos fazer! Até ficamos entusiasmados. Aí, a agência pede um desconto.

Oi? Desculpe? Desconto? Espera lá, ajudamos a conseguir o cliente e, como prêmio, pedem um desconto? Senti-me injuriado, para dizer a verdade.

Mas eles insistiram e, como último argumento, alegaram que a empresa estava ainda estava começando e não tinha dinheiro. Lembrou daquele comentário do Renato Beninatto ao artigo sobre o FaceBook , onde ele diz que o FaceBook não tinha dinheiro para pagar tradutores, embora tivesse dinheiro para pagar mobiliário de luxo. Há muitos anos uma colega disse que eu era “burro, muito burro” e essa afirmação, vinda de uma mulher inteligente pela qual tenho imenso respeito e até um tanto de carinho, me deixou traumatizado. Eu devo ser muito burro, mesmo, porque não entendo essas coisas.

É certo que a empresa que a Kelli e eu ajudamos a conquistar não era nenhum FaceBook e estava começando, mas fazia parte de um dos maiores grupos econômicos brasileiros. Para pagar a Kelli e a mim, entretanto, não tinham dinheiro. Dá para entender? Pergunto: se prestássemos o serviço a meia paga, como nos pediam, quando a empresa estivesse dando lucro, iam repartir conosco? Ou iam deixar de procurar o tradutor mais barato, reconhecendo que, no início, fomos camaradas com eles?

A agência concordou com todos os meus argumentos (sempre concordam, mas…) mas já tinham apresentado a cotação, contando com um desconto de minha parte e agora não podiam fazer nada. Juraram que, da próxima vez, pagariam meu preço integral. Essa é uma das cantadas mais velhas do mundo, caso você não saiba. Da vez seguinte, a cantada é “da vez passada você fez um precinho razoável …” .

Para encurtar a história, me irritei, mantive a cortesia (espero, ao menos), mas não cedi.

Este artiguinho é para voltar ao assunto do FaceBook, que eu não esqueci. Ainda vai dar muito pano para manga.

Já que você está aqui, lembre da Sala 7, que é grátis e vai ao ar nesta quinta e sábado e da palestra de Introdução às Técnicas de Tradução, que terá duas apresentações, nos dias 20 e 22 de maio.

Sala 7 na quinta feira ou sábado.

Introdução às Técnicas de Tradução: quinta-feira ou sábado.

Para quem perguntou: a Palestra sobre Técnicas de Tradução pode ser paga com qualquer cartão de crédito brasileiro ou internacional mas se limita a tradução do inglês para o português.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


5 Comentarios em "A gente ganha o cliente e a agência pede desconto"

  • danilo
    07/05/2010 (9:26 pm)
    Responder

    O fato é que, para pedir desconto, qualquer pretexto serve. Já me pediram desconto porque era um serviço fácil. Isso foi no tempo em que a gente discutia tradução olho no olho com o cliente. Quando viu a minha cara, ele disse “para você, evidentemente”. Teve de ouvir um monte de mim: “você quer dizer que quanto mais sabe menos tem de ganhar?”

    Mas o mais divertido foi um cara que me pediu desconto porque o serviço era complicado e ia me dar a oportunidade de aprender muita coisa.

    E sempre tem os que dizem que é uma boa oportunidade, que eu preciso pensar no futuro, não no dia de hoje, que preciso plantar porque um dia chega a colheita. Porca vacca, com 40 anos de carreira e 67 de idade, vou ficar plantando para colher quando?

  • Raquel Schaitza
    07/05/2010 (9:09 pm)
    Responder

    Foge um pouco ao âmago da questão do Danilo, mas aconteceu hoje, está tão fresquinho! Cliente manda uma papelada de divórcio já avisando que pediu orçamento a outro tradutor e achou muito caro e pedindo para eu fazer um preço melhor porque ele já estava gastando muito com toda essa documentação. Ué… então eles casam, se divorciam e eu financio? Quiéquieu tenho a ver com isso? Quase respondi dizendo que minha linha de crédito para divórcios está suspensa até segunda ordem!

    Bom final de semana!

    Raquel Schaitza

  • Márcio Badra
    07/05/2010 (8:30 pm)
    Responder

    Certa feita uma agência dos EUA me consultou sobre a tradução de uns artigos de economia para uma grande universidade, mas pediu um desconto imenso alegando que a instituição tinha uma verba muito pequena para o projeto, mas que pelo prestígio de ter meu nome nos créditos da publicação valia a pena trabalhar pela metade do preço. Minha resposta foi: “Concordo. Você paga meus honorários normais e eu dôo metade para a universidade”. Nunca mais ouvi falar no assunto.

  • Felipe
    04/05/2010 (11:00 am)
    Responder

    E quando uma empresa pede que você faça um teste, já sabendo que não vão te pagar, te mandam umas trocentas páginas, você faz, com muito empenho, eles agradecem, e publicam sua tradução em seu catálogo de produtos, agora bilingue, sem te dar nenhum crédito? Eu tenho os arquivos do trabalho que fiz, será que vale a pena brigar por isso?

    • danilo
      05/05/2010 (8:17 am)
      Responder

      Complicado, não? Mas, se você tem provas, pode exigir que tirem do site e, se não tirarem, pode ingressar em juízo, exigindo uma indenização por perdas e danos. Quem pode te orientar sobre o que constitui prova, em direito — que não é exatamente o que a gente considera prova fora do direito — é um advogado.


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