A gravidez da minha nora e o Google Translator

Minha nora está grávida e muito das nossas conversas agora gira em torno de grávidas e gravidez. Anteontem, ela me contou uma história que acho interessante contar para você. Uma amiga dela fez um exame de curva glicêmica em um daqueles hiperlaboratórios que usam equipamentos moderníssimos para controlar a qualidade. O exame deu um resultado apavorante e a moça entrou em pânico. Levou o laudo ao médico que disse, de cara: “isso está errado, vamos fazer um outro exame, em outro laboratório”. Lá foi a moça e fez o exame de novo, obtendo um resultado totalmente diferente.

O que terá acontecido no primeiro exame? Não sei. Só sei que o doutorzinho do convênio foi mais esperto que a supermáquina do laboratório, como, aliás, se espera que seja. Entre o luddista que prega a destruição das máquinas e o ingênuo que acha que o progresso tecnológico tem a solução para tudo e as máquinas nunca falham, fico com o médico que olhou o laudo e achou que as informações não congeminavam com o resto do quadro apresentado pela paciente. Não sou médico nem entendo nada de medicina, mas estou imaginando a cabeça do médico, funcionando mais depressa e melhor que a máquina, sinapses que a máquina não tem dizendo que se X e Y e Z e não sei mais quê, então T não pode ser verdadeiro. Tem coisa. O médico não tinha como dizer qual deveria ser o resultado — e é por isso que solicitou o exame — mas tinha como dizer que o laudo não podia estar certo.

Bonita história, não é? Então! Que que isso tem que ver com o Google Translator? Creio que duas coisas: uma que máquinas erram, algo que você provavelmente já sabia; outra que o profissional tem que ser mais esperto do que a máquina, ver o quadro geral — aquilo que nós chamamos “o contexto”.  É essa, atualmente, a tarefa do tradutor profissional: ser mais esperto que a máquina. Porque quem não for mais esperto que a máquina, vai ficar sem serviço.

Obrigado pela visita e, por favor, dê uma clicadinha aqui. Amanhã tem mais. Já matamos o dragão, limpamos a toca, está tudo em ordem, de novo, e voltamos à atividade.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


8 Comentarios em "A gravidez da minha nora e o Google Translator"

  • danilo
    09/12/2010 (6:06 am)
    Responder

    Você está certo e eu estava errado, Gustavo.

  • Gustavo
    12/06/2010 (9:05 pm)
    Responder

    “O médico não tinha como dizer qual deveria ser o resultado — e é por isso que solicitou o exame — mas tinha como dizer que o laudo não podia estar errado.”

    Não seria “mas tinha como dizer que o laudo não podia estar certo.”?
    ou será que entendi tudo… errado? :S

  • Aurora
    02/06/2010 (10:01 am)
    Responder

    Recentemente tive um problema sério com uma pessoa que trabalha comigo e se diz tradutora. Ao revisar um documento que ela havia traduzido, idenfiquei muitos erros e depois de alguns minutos pude comprovar que ela havia utilizado o google translator em todo o documento e mal havia revisado o que dali havia saído. Achei um horror e, se tivesse autoridade para tal, tê-la-ia demitido. Depois deste episódio, percebi que ela ainda continua usando a tradução automática, porém revisando um pouco. O trabalho não sai muito bom, pois é sempre um texto pobre em estilo, vocabulário e em outros aspectos, mas está menor ruim que aquele primeiro documento.
    Muitas pessoas não entendem que o tradutor automático é apenas um auxílio, não um profissional.

  • Petê Rissatti
    17/05/2010 (9:57 pm)
    Responder

    Danilo,

    Como sempre, delícia de texto e certeiro na mosquinha que tem pairado na cabeça dos desavisados. Já ouvir em alguns lugares que você bem conhece gente assustada com o futuro da profissão. Para dizer a verdade, tudo que o seu Gúgol faz já era de alguma forma previsto e quem acompanhou a evolução da coisa sabe que ainda deve muito para os tradutores, ao menos pr’aqueles que têm competência, consciência de seu trabalho e correm atrás para não “comer poeira” dos tradutores automáticos.
    Abração!

  • Marion L. Pfeffer
    16/05/2010 (10:06 am)
    Responder

    Querido Danilo,

    Perfeita a sua abordagem comparando resultados de exames laboratoriais e conhecimento médico humano. Máquinas são maravilhosas, e o computador também. Eu não saberia viver sem eles. Mas são ferramentas, como uma pá ou uma alavanca. São capazes de fazer cálculos mais rápido do que nós, de detectar substâncias e de nos auxiliar em tarefas demasiado cansativas ou perigosas para nós. Mas não são as máquinas que nos fazem, nós é que as fazemos. E nós as substituímos quando não servem mais a nossos propósitos, e não vice-versa. Para cada humano substituído por uma máquina, abre-se um, pelo menos um, posto de trabalho novo que exige mais tino do que o anterior.

    Acho que a nossa profissão sofrerá profundas mudanças com o tempo; sempre foi assim, com todas as profissões, a ponto de a profissão original mal ser reconhecível. É o curso natural das coisas. É só olharmos para o nosso início profissional e para nós agora. Cá pra nós, não sinto falta da máquina de escrever. Não tenho medo do futuro.

    A propósito, a minha nora também está grávida. 🙂

    • danilo
      16/05/2010 (10:41 am)
      Responder

      Viva, Marion! Um beijo para você, de quem estou com grande saudade.

  • Luciano Eduardo de Oliveira
    16/05/2010 (7:04 am)
    Responder

    Escreve-se ludista: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=ludista

  • Roseli
    15/05/2010 (5:52 pm)
    Responder

    Danilo e Kelli,

    Por enquanto, o Google não tem uma pulga atrás da orelha, porque não tem orelha.
    Sem pulga atrás da orelha, a gente cai na primeira das muitas armadilhas que uma tradução pode nos apresentar.
    Abraços,
    Roseli


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