Cotar mais para dar desconto

Escreve o Leandro Gomes, perguntando: E se eu superfaturar meu preço, já pensando no desconto? Pega mal?

Obrigado pela pergunta, Leandro. Este e todos os blogues vive mais das intervenções dos leitores do que de qualquer outra coisa e blogueiro fica todo feliz quando leitor escreve.

É uma questão de opinião. Tem gente que acha normal e até defende a prática, porque deixa o cliente feliz. Você cota 120, o cliente chora, diz que – para este serviço, especificamente – não vai dar, que a situação está difícil e o escambau, você chora um pouquinho do teu lado, ele chora mais um pouquinho e você cede (ou finge que cede, porque já estava preparado) e diz que vai deixar por 100 desta vez – mas só desta vezinha. Acho um negócio muito canastrão, para dizer a verdade.

Parece, aquela coisa de moleque chato que fica puxando a roupa da mãe e dizendo, “Pô, manhê, cê é ruim, viu? A mãe do Weirdson deixô ele i, e cê num qué mi dexá. Pô, manhê!” até que a mãe, cheia de tanta encheção, se é que posso dizer isso, grita “Vai, diabo! Mas da outra vez nem pensar!” e o moleque vai em paz, todo feliz, sabendo que, da próxima vez, ela vai deixar do mesmo jeito. É só pedinchar um pouco. Por isso, quando meu filho era pequeno, aprendeu que quando dava, eu dizia que sim; quando não dava eu dizia que não e pronto. E quando dizia que não, é porque era não e pronto.

Acho que quando você adota a prática de superestimar o preço, para depois dar um desconto depois de uma boa choradinha, está estimulando o cliente a se manter chorão, algo que eu, particularmente, detesto. Está premiando o cliente chato. Entretanto, até aí, nada de antiético.

Entretanto é uma prática injusta para com o cliente que aceita o teu preço sem reclamar e que acaba pagando mais porque foi legal com você.

Por isso, sempre coto o preço que espero cobrar. Coto com educação, sempre por escrito, e só começo o trabalho quando recebo aprovação escrita, para evitar mal-entendidos.

Mais uma coisinha, Leandro: não chamo a esse procedimento “superfaturar”. Superfaturar, para mim, é cobrar 12.000 palavras quando só foram traduzidas 10.000, o que é desonesto. O procedimento que você aponta, eu chamaria “sobrestimar”, “cotar com folga” ou coisa parecida.

Espero que a resposta tenha sido satisfatória. Volte sempre.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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