Eu e a tecnologia

Era 1970. De manhã, trabalhava na Arthur Andersen, que era, na época, uma importante firma de auditoria. De tarde, trabalhava em casa, traduzindo para a Editora Atlas, que se especializava em livros de contabilidade e coisas semelhantes. Traduzia em uma Olivetti Studio 44, mecânica, uma excelente máquina, para os recursos da época, e que tinha um preço accessível, para quem ganhava Cr$ 10,00 por lauda.

Quando fui entregar minha primeira tradução no escritório da Atlas, na rua Helvetia, 574, topei com um outro tradutor, que estava entregando uma pilha de papel almaço, com uma tradução manuscrita, a caneta-tinteiro. Para mim, tradutor verdinho de tudo que era, não me parecia normal: para mim, tradução se fazia com máquina de escrever. Muito pouco diplomático como sempre, manifestei minha admiração. O homem respondeu, entre irônico e arrogante, que era tradutor, não datilógrafo. Ainda ganhei um olhar esquerdo do Avelino, que era assistente do diretor editorial.

Quando, lá para 1972, comprei uma máquina elétrica, ainda de barras, disseram que eu era louco: que o rendimento financeiro da tradução não comportava o investimento.

Tempos depois, lá para 1976, numa reunião da ABRATES na Faculdade Ibero-Americana, (hoje parte do Grupo Anhaguera), me explicaram, com delicadeza, mas não sem firmeza, que traduzir à máquina podia até servir para tradução técnica, mas nunca para tradução literária, que tinha de ser feita à mão.

Em 1984, escandalizei muita gente comprando um Spectrum MicroEngenho II, meu primeiro computador. Fazer tradução com computador não dava certo, todos sabiam. Cheguei a perder um cliente por causa disso. Cheguei a ser ridicularizado em público por um colega que dizia que, sendo ele excelente datilógrafo e tendo ele o hábito de pensar antes de datilografar uma frase, não precisava dessas coisas.

Lá para 1996 comecei a usar Trados. Vinha pelo correio, em dois disquetes. Um monte de gente achou que eu era louco varrido. No 6º Encontro de Tradutores e Intérpretes, promovido pela Alumni em 1997, falei sobre o Trados. Foi muito divertido. Na hora das perguntas, um colega levantou a mão e disse “você conhece algum tradutor sério que use esse troço?” Saia justa geral.

Agora, estou me vendo a braços com a tradução automática. Podem rir à vontade.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


1 Comentario em "Eu e a tecnologia"

  • Lelia Maria
    15/09/2017 (11:16 am)
    Responder

    Olá. O problema muitas vezes é que o cliente não aceita as novas tecnologias…


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