Frango!


A Meg encontrou um erro de tradução divertido no Windows. Não há de ser o único, nem mesmo o mais curioso deles e eu tenho seguido a praxe de não apontar erros alheios, mas o que ela encontrou dá margem a uma conversa interessante. Clique aqui pará dar um pulo lá para ver e volte para ler o meu comentário.

É um erro de tradução, certamente, mas nem todo erro de tradução é um erro de quem traduziu. Pode ter sido, mas nesse tipo de serviço, interfere muita gente e sabe-se lá quem deu a rata.

Pode ter sido o tradutor e esta é uma hipótese com boas probabilidades de estar certa e eu não vou ficar aqui dizendo que todo tradutor é bom, porque você e eu sabemos que não é verdade.

Entretanto, pode não ter sido falha do tradutor. Tradutor, nesses casos, trabalha com um glossário e, muitas vezes, é obrigado a aplicar o glossário a bem da “consistência” (que, em português, neste caso, se diz “uniformidade”, mas alguns tradutores não conseguem falar português, ou acham indigno de suas altas prosopopéias). Nesses casos, quando a palavra tem duas traduções, a coisa encrespa. E, vamos falar a verdade counter, entre outras coisas, é contador e contador deve ser a tradução mais frequente para counter, num texto de informática. O glossário deveria ter as duas traduções, mas talvez não tenha. Ou talvez tivesse e o tradutor pertencesse à escola do “a primeira opção é a que vale”.

Provavelmente, falta contexto. O tradutor recebe um longo arquivo com cadeias de caracteres (“strings”, na língua da matriz) sem muita conexão uma com a outra e vai traduzindo, provavelmente com Trados – que a Microsoft parece ainda adorar – até terminar sua cota do dia.

Mesmo que o tradutor possa violar o glossário e tenha violado, sempre há uma boa chance de o revisor ou o pessoal encarregado de garantia de qualidade ter “corrigido o erro” e até dado um puxão de orelhas no tradutor. Quem nunca passou por essas coisas, que se dê por feliz.

Finalmente, acho que faltou o teste da tradução. Nesses casos, depois de as cadeias de caracteres serem incluídas na interface de usuário, tem que ter ao menos uma pessoa a clicar, metodicamente, em tudo o que for clicável, para ver se abre tudo direitinho, se acontece o que deveria acontecer e se não está escrita nenhuma bobagem. E esse cara é o goleiro: pode falhar todo o resto do time, que tem jeito, mas se falhar ele, não tem solução, é gol mesmo. E esse foi um frango dos bons.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


6 Comentarios em "Frango!"

  • Danilo Nogueira
    22/04/2009 (2:07 pm)
    Responder

    Daniel, você não disse nada que eu não tinha dito antes na comunidade ou nas listas e, portanto, concordo com você. Aliás, das minhas opiniões sobre a turma que vive a citar erros dos outros, você sabe de sobra. E eu próprio já disse mil vezes (e você deve ter lido centenas delas) que achar erro em serviço dos outros é bem mais fácil que fazer serviço direito.

    O objetivo deste meu artigo, que você não há de ter deixado de notar, foi comentar o processo tradutório e seus perigos, bem como demonstrar que nem tudo o que se chama “erro de tradução” é burrice do tradutor.

    Quanto à Microsoft, é bom lembrar que eu nem disse nem insinuei que eles não se importam com a qualidade das traduções.

    Mas te devo um favor: com seu comentário, me sugeriu um artigo para o blogue, num momento em que ando meio falto de inspiração.

    Obrigado pela visita, pelo comentário e pela sugestão.

    Amplexos complexos e perplexos.

  • Daniel Estill
    22/04/2009 (1:55 pm)
    Responder

    É muito fácil encontrar erros, como todos sabem. Mais fácil e gostoso ainda é criticar a Microsoft e falar mal do Bill Gates.

    Eu fico bobo com tamanha infantilidade. A Microsoft é uma das empresas mais criteriosas e rigorosas com suas traduções. Qualquer um que já passou pelos procedimentos de controle da qualidade dos projetos da MS sabe disso. Os volumes de tradução e a complexidade de qualquer projeto são coisas assustadoras. Claro que há falhas, mas, ao final do processo, os produtos da MS são lançados em dezenas de idiomas quase simultaneamente, pelo mundo todo. Já pensaram na logística disso? Na quantidade de empregos gerados por esse processo do qual somos apenas um pedacinho?

    Exatamente esses produtos dos quais todos adoramos falar mal, mas sem os quais não vivemos.

    Aliás, que outra empresa vocês conhecem que colocam todos os seus glossários disponíveis na Web gratuitamente, para não falar no completíssimo guia de estilo?

    Claro que é divertido encontrar erros no Windows, certamente tem coisas divertidíssmas e eu também rio e me incomodo com elas. Mas, pessoal, o buraco é mais embaixo, bem mais embaixo. Até em termos de preços e processo de contratação, um dos motivos pelo qual me afastei da localização. Mas sei que a coisa não é simples e é simplório dizer que a MS é malvada e não se preocupa com a qualidade das traduções.

    E se quiserem um pouquinho mais de diversão, procurem counterclockwise em: http://www.microsoft.com/language/pt/br/search.mspx

    A asneira está lá, de fato. Mas em meio a milhões de palavras traduzidas corretamente, para vários idiomas e de graça para quem precisar. Não é coisa de empresa leviana ou inescrupulosa.

    Abs.
    Daniel Estill

  • Pricila Franz
    17/04/2009 (8:28 pm)
    Responder

    Esse erro é questão de falta de contexto. Pior é o MSN Messenger, que tem “Domingo-Feira”! Esse nem tradução automática não erra! 😉

  • Patrick
    16/04/2009 (2:24 pm)
    Responder

    Eu já vi há alguns anos uma matéria sobre esse assunto numa revista de informática. É como você falou: as pessoas encarregadas da tradução recebem o texto sem contexto (!) e o resultado final só depois de pronto o sistema.

  • Danilo Nogueira
    13/04/2009 (12:44 pm)
    Responder

    Duvido que o pessoal que tenha testado o beta se importe com isso. Essas coisas são testadas antes do beta.

    Não será o único frango desse trabalho.

    Aliás, é bom lembrar que tradução sem erro não existe, por maiores que sejam os cuidados tomados.

  • Meg
    13/04/2009 (12:07 pm)
    Responder

    O mais curioso é que eu uso o XP há uns bons cinco anos e nunca tinha notado isso até o último Sábado (!). Provavelmente passaria ao largo de qualquer beta tester…


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