Fui convidada para traduzir um livro

Escreveu a Maria Alice. Fazia tempo que não escrevia. Gosto quando ela escreve. Me faz pensar em certos problemas fundamentais de nossa profissão.

A Maria Alice foi convidada para traduzir um livro que alguém escreveu em português e publicou em forma de livro eletrônico. A tradução é para o eslobóvio, uma língua fictícia que estou usando aqui para dizer que o original estava em português, sem dizer exatamente para que língua ela foi convidada para traduzir, porque isso não vem ao caso.

Ela me pergunta como cobrar por um serviço desses. Ora, direi eu, cada um cobra como e quanto quer e eu não tenho nada que ver com isso, mas não custa dizer como eu agiria se fosse convidado a traduzir um livro para o inglês, que é o outro lado do meu par.

A Maria Alice está empolgada com a oportunidade – o que é muito mau: orçamento se faz com a cabeça fria.

Começaria quantificando o trabalho. Segundo ela, o livro tem 270 páginas, algo que para mim, não quer dizer rigorosamente nada. Página não é unidade que se use para quantificar trabalho, Maria Alice. Nunca. Leia este parágrafo de novo. Dez vezes.

Leu? Agora, vamos em frente.

Muita gente usa lauda, mas lauda é lauda, página é página, além do que, quando se fala em lauda, há que dizer a que tamanho de lauda estamos nos referindo. Porque lauda tem de todo tamanho.

Atendendo a meu pedido, a Maria Alice fez lá suas contas e concluiu que o texto tem sessenta mil palavras e uns quebrados. Já dá para começar a pensar.

Postei aqui um  texto seminal do Jorge Rodrigues sobre preços de traduções, explicando quanto as agências pagam. O patamar mais baixo, é o das agências brasileiras. Diz lá ele que um iniciante talentoso e bem formado pode esperar R$ 0,08 por palavra, o que daria R$ 4.800,00 pelas 60.000. Esse é o piso. Abaixo disso, para traduzir um texto a uma língua estrangeira, nunca. Mesmo isso é muito baixo.

O SINTRA fala em R$ 0,45 por palavra, o que daria R$ 27.000,00 pelo serviço todo, um valor difícil de alcançar, principalmente para quem não tem nome feito.

Entre esses dois extremos, muito distantes entre si, deve ficar sua cotação. Provavelmente, vai ficar mais perto do inferior que do superior. Não importa quanto você cote, entretanto, é muito provável que a pessoa interessada peça um desconto. Aqui, você encontra mais de sessenta alegações que os clientes em potencial costumam fazer para extrair um desconto dos tradutores. Tem gente que concede, tem gente que não concede. Eu não concedo.

Quando se trata de edição do autor, muitas vezes oferecem porcentagem nas vendas, em vez de pagamento fechado. Rejeite. Você vai ter de esperar meses para receber um pagamento mínimo. Simplesmente, não vale a pena.

Outra coisa: não combine nada por telefone. Tudo por e-mail, que fica certinho, escritinho e bem explicado. Não digite nem uma palavra antes de ter uma aceitação escrita por parte do cliente, para não ter aquela história do “mas nós não tínhamos combinado que…”.

Por fim, entregue e cobre o serviço em partes, digamos, quinzena a quinzena, e só inicie a parte seguinte após receber o pagamento da parte anterior. “Depois a gente acerta” é morte certa. E não se esqueça de ver como a pessoa quer documentar o pagamento: se quer RPA, Nota Fiscal ou o quê.

Boa sorte.

 

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "Fui convidada para traduzir um livro"

  • Marlene Furtado de Mendonça
    02/07/2017 (9:45 am)
    Responder

    Eu já me vi em uma situação bem curiosa: traduzir um livro – aliás foram 3 – a partir do original impresso: os dois primeiros publicados em 1899 e o terceiro em 1945. Dois deles com cerca de 450 páginas, o outro com 160. Não havia a versão digital para calcular em palavras. Em laudas também estava fora de questão. Minha solução? Copiei uma página do original e contei as palavras. Cobrei o valor em palavras baseada nesse exemplo. Foi aceito sem problemas.

  • Gio Lester
    02/07/2017 (9:36 am)
    Responder

    ~Cotação é coisa chata. Outra coisa chata é emitir fatura. Gostaria só de ter que lidar com os textos e pronto. Mas já que tem que lidar com esss duas coisas chatérrimas, tem que ser feito com responsabilidade, cabeça fria e conhecimento. Bons conselhos, Mestre.


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