Luddistas, ludistas e o acordo ortográfico

Escreveu o Luciano Eduardo de Oliveira, que gentilmente desvia parte do seu tempo de outros afazeres para catar erros de grafia nos meus textos, falando sobre o luddista, com dos dês, que usei em artigo anterior e afirmando que a grafia correta é “ludista”, com um dê só. Deu até um link como prova, que ele não só tira a vida ao ofídio, como também exibe o instrumento usado no desempenho da tarefa, no que está muito certo. O link conduz ao Aulete Digital.

Confesso que me surpreendi com a observação. Antes de escrever o artigo onde aparece o Luddista, abri meu velho Houaiss (reconhecidamente anterior ao acordo), que grafa o termo com dois dês. Não me constava que o famigerado Acordo tivesse alterado a praxe relacionada com a grafia de derivados de nomes estrangeiros e, portanto, no momento, satisfiz-me com o que dizia o Houaiss.

Mas o Luciano me faz dar um salto. Porque todos nós erramos e eu não poderia ser a exceção, mas é minha obrigação profissional conhecer as regras, mesmo que, de vez em quando, deslize e  viole uma que outra. E a mim parecia que o “luddista” estava perfeitamente de acordo com as regras. Fui então consultar as Bases do Acordo Ortográfico, e está lá no Item 3 da Base I:

3º) Em congruência com o número anterior, mantém-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de Garrett; jeffersónia/ jeffersônia, de Jefferson; mülleriano, de Müller; shakesperiano, de Shakespeare.

Justificado estaria o meu “luddista” então, se a palavra derivasse de Ludd, com dois dês em inglês. Bom, deriva-se do nome de Ned Ludd, escrito com consoante dupla. Parece-me, então, salvo melhor juízo, que o Aulete Digital é que deu uma escorregadelazinha. Mas, como, muitas vezes, na prática a teoria é outra, fui dar uma xeretada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, que se encontra aqui e confirma a grafia com consoante dupla.

Por outro lado, achei curioso o “mantém-se” das Bases (e, tanto quanto tenha podido averiguar, é exatamente isso o que está no Acordo). Porque, para mim, seria “mantêm-se…quaisquer”, com o verbo no plural.

Vai saber!

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "Luddistas, ludistas e o acordo ortográfico"

  • José Carlos G. Ribeiro
    06/06/2010 (12:33 pm)
    Responder

    Pois é, Danilo, quem escreveu o “mantém-se” das Bases, deve ser o mesmo que colocou a placa de “aluga-se salas”.

  • Luciano Eduardo de Oliveira
    16/05/2010 (11:42 am)
    Responder

    Há também ludita, ludismo e luditismo, segundo o Ciberdúvidas: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=7157

    Talvez o Aulete tenha dado a lud(d)ista o mesmo tratamento de gilete e lobista, entre outros, que simplificam a sua grafia na língua portuguesa, que repudia as consoantes duplas, com exceção de r e s (e em Portugal também m, como em comummente e n, como em connosco). Entretanto, entre o Aulete Digital, que parece ter colaboração dos usuários, e o dicionário da Academia Brasileira de Letras, que tem força de lei no Brasil, fico é claro com o segundo.

    Quanto a catar os erros, como diz minha tia, ninguém dá o que não tem. Eu só posso oferecer isso, alertar contra algum deslize, para que os tradutores que o administram e principalmente os leitores deste blogue, que é sempre muito bem redigido e constitui exceção no que se escreve em língua portuguesa, não levem para casa nenhuma imprecisão. Se não (mais) forem pertinentes os meus comentários, que sempre faço com o intuito de ajudar e não de promover nenhum ataque ad hominem, até porque não tenho motivo algum e não é do meu feito, basta dizer, que me calo.


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