Mensagem aos novatos

De vez em quando, escrevo uma destas mensagens aos novatos. Variam um pouco: mudam as questões da moda, mudam os mercados, mudam os principiantes e – principalmente – mudo eu. Esta mensagem foi escrita em julho de 2018 e, talvez, não valha mais para o mês que vem: este mundo muda cada vez mais rápido.

  1. Não há um caminho garantido para ingressar na profissão. Muita coisa ajuda, nada garante. Mesmo ter um padrinho – que é sempre bom – não garante nada. Além disso, o que serve para Paulo pode não servir para Paulino. O seu caminho, quem traça é você. Como dizia Antonio Machado, caminante, no hay camino, se hace camino al andar.
  2. A economia brasileira está em crise, situação que acarreta, ao mesmo tempo, queda na demanda por serviço e aumento na oferta de mão de obra: há uma multidão de gente que, de repente, descobriu que queria ser tradutor desde criancinha. Não tenho condições morais para reclamar, porque foi numa dessas que eu virei tradutor. Não me arrependo.
  3. Não adianta reclamar que a profissão não é regulamentada e que, no Brasil, qualquer um pode se dizer tradutor. Em todo o mundo é assim e, se saísse a regulamentação, os primeiros a burlar a lei estariam entre os próprios protegidos pela regulamentação, como acontece com os TIPICs.
  4. Tenha paciência e seja persistente. Viver de tradução é perfeitamente possível, mas não espere começar a viver de tradução de um dia para outro. Acontece, mas é raro. Formar uma boa carteira de clientes demora mais de um ano, salvo se você tiver muita sorte.
  5. Se sua língua nativa for o português, é provável que a maior parte do que você vai traduzir seja para o português mesmo. Espera-se que você escreva sempre de acordo com a norma culta. Coisas como “houveram casos”, “a empresa manteu”, “que faz-lhe bem”, “idéia”, “semi-final”, hífen ou dois hífens no lugar de travessão – tudo isso são coisas inadmissíveis numa tradução profissional. Dizer que não se adaptou à “nova ortografia” ou citar o professor Marcos Bagno é inaceitável.
  6. Aprenda a usar seu computador. O MSWord é essencial, mas tem mais coisa. As ferramentas de tradução assistida por computador, geralmente conhecidas por seu nome inglês “CAT tools”, para quem trabalha com texto, também são. Para quem trabalha com audiovisuais, há outras, que não conheço porque não trabalho na área. Investigue.
  7. Aprenda a traduzir. Ser fluente, ser professor de línguas, ter morado no exterior, ser especialista na área, ter amor à língua, tudo isso ajuda, nada disso garante que você possa traduzir bem. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Faça um curso de tradução. Presencial, se possível, a distância, se tiver que ser. Mas estude tradução. Baixe o meu livrinho: é um bom começo e é grátis, embora eu fique contente se você fizer uma doação. Clique aqui para baixar. Não tente fazer interpretação ou traduzir audiovisuais sem fazer um curso especializado. Mas fuja dos cursos milagrosos que prometem transformar você em profissional de sucesso num zás-trás.
  8. Prepare-se para cumprir a legislação. A maioria dos clientes exige nota fiscal de pessoa jurídica. Não é chatice deles: é a lei. Os clientes que trabalham sem nota ou que aceitam RPA, nota fiscal da prefeitura, essas coisas, são poucos e estão desaparecendo. As pessoas físicas geralmente não fazem questão de documentação, mas é uma clientela pequena e disposta a pagar pouco. Jamais trabalhe com nota de terceiros. Dá bode. Não adianta dizer que é “frila”. Antes de começar a trabalhar, procure e contrate um bom, contador. Sim, custa dinheiro.
  9. A melhor porta de entrada na profissão costuma ser uma agência brasileira. A maioria das agências paga pouco, algumas são desonestas, muitas são desorganizadas, mas costumam aceitar iniciantes e são uma excelente escola, na qual você aprende coisas que não se ensinam em escola alguma. Fique longe desses sites onde oferecem serviços de todo o tipo a todo o tipo de prestadores de serviço. Nunca pague para obter serviço.
  10. Começar por uma agência estrangeira é perigoso. O mercado internacional costuma pagar mais, porém é mais perigoso e, se tomar um calote, é difícil resolver a questão.
  11. Prepare um CV bem feitinho, curto, que caiba numa página, revise dez vezes, deixe descansar uma semana, revise mais dez vezes. Peça para um amigo revisar para você. Aí então, mande para vinte agências. Dessas vinte, talvez duas te peçam testes. Faça os testes, com amor e carinho. Não espere respostas corrigidas e comentadas: as agências recebem carradas de testes e não podem se dar ao trabalho de dar respostas personalizadas. De qualquer maneira, comemore enviando CVs para outras vinte agências.
  12. Escolha um nome profissional . Quer dizer, se seu nome é Maria Renata Alvez de Mello Medeiros Franco Brunzundungas Brasil da Silva, decida que nome vai usar profissionalmente, digamos “Renata Medeiros” e use em cartão de visita, e-mail, Facebook, LinkedIn, assinatura, enfim, em todo lugar. Eu não fiz isso e me arrependi.
  13. Aprenda a orçar seu serviço. Aqui, temos informações importantes sobre preços. Não se atenha à tabela do SINTRA. Ou, ao menos, antes de pedir “preço SINTRA”, leia atentamente as sugestões deles.
  14. Se te oferecerem algum serviço, combine tudo direitinho, por escrito, incluindo preço, prazo de entrega e forma de apresentação e não digite a primeira letra da tradução antes de o cliente confirmar que aceita as condições – também por escrito.
  15. Participe. Entre para pelo menos um dos diversos grupos de tradutores no FaceBook. Melhor entrar em dois ou três, para ver onde você se encaixa melhor. Ouça muito e, no começo, não fale nada. Nesses grupos, a despeito das brigas infindáveis (algumas começaram no século passado), aprende-se uma barbaridade.  Procure, no Facebook, “Barcamps”: são uns eventos muito bacanas, abertos a todos, inclusive novatos. Procure um perto de você e conheça muita gente interessante.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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