Não se pode servir a dois senhores

Está na Bíblia (Mateus, 6:24): “não se pode servir a dois senhores”. O problema do tradutor é que tem que servir a pelo menos três: ao autor, ao leitor e ao cliente. Por isso, tradução é um exercício de equilibrismo triangular, perigoso e complicado, que nem sempre dá muito certo.

Então! Estou em paz, traduzindo sem fazer mal a ninguém e me salta da tela um “Does the universe have a designer?“ Entender, entendi até que bem, mas traduzir é o que era problema, demonstrando que saber uma língua estrangeira o suficiente para entender o texto de partida é indispensável para traduzir, mas não suficiente.

Quando era iniciante, tiraria a frase de letra e iria dormir feliz com meu talento e competência. Agora, a frase me tirou o sono. Como traduzir esse tal desse “designer”?

Parece fácil, não é? Mas para mim não parecia – ao menos naquela hora e agora bem menos. Então resolvi pedir ajuda dos meus colegas deste grupo muito animado, e sempre pronto a ajudar. E são mais de 16.000 membros. Quer dizer, entre tanta gente, não ia faltar que ajudasse. Não faltou mesmo.

A diversidade das sugestões e a intensidade da discussão são testemunho da dificuldade do problema.

Alguns colegas sugeriram “arquiteto” – mas esse é um termo associado à maçonaria, sociedade à qual o autor não pertencia. Na verdade era membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que conhecemos coloquialmente como “Mórmons”. Como tal, era muito pouco provável que usasse, se estivesse escrevendo em português, “arquiteto”, nessa acepção. Eis uma outra preocupação do tradutor: imaginar como o autor teria escrito se tivesse escrito em português. Não é fácil.

Outros sugeriram manter o “designer” e citaram a moderna contenda entre evolucionismo e criacionismo, onde se discute o tal do “intelligent design”. Entretanto, o texto de partida tem mais de 50 anos e autor nem estava cogitando dessa contenda. (Agora, que estou escrevendo este texto, me pergunto se, lá no fundo, não estava mesmo – as opiniões do tradutor mudam e é por isso que uma tradução jamais está terminada: o que nos parecia ótimo hoje, pode parecer péssimo amanhã.) Mas acho que o cliente não ia gostar muito de “designer”. Meu cliente escreve um português coloquial, simples, despojado, mas isento de anglicismos. Para ele, o português basta. E tradutor tem que satisfazer o cliente, também. Servicinho complicado, viu? É um tal de puxa de cá, estica de lá que Deus me livre.

Vários colegas me sugeriram “autor”, afirmando, inclusive, que é um termo comum entre os Mórmons. Talvez seja, mas fora da cultura Mórmon, que não é das mais conhecidas aqui, não é comum. Cheira muito a “escritor de livro” e poderia levar o leitor a uma ideia incorreta. A gente precisa pensar no leitor, também, sabe como é.

Alguns colegas me sugeriram “criador”. Nos meus ouvidos, soaram as palavras do Padre Jesuíno, na Igreja do Bom Jesus do Brás, lá atrás em 1950, me ensinando os rudimentos da doutrina cristã: “Deus é o espírito perfeitíssimo criador do céu e da terra.” Caiu direitinho! “Criador”, claro. É isso o que vou usar, embora agradecendo aos que deram outras sugestões. Muitos acharão que não é nada disso e que eu não passo um tradutorzinho de meia tigela (o que não deixa de ter certa dose de verdade). Eu próprio posso mudar de ideia até a hora de entregar o serviço ou (o que é muito pior) depois de entregar. É um risco, claro. Mas tradutor tem que correr riscos e quem não arrisca, não petisca. Por outro lado, quem não arrisca não vira petisco.

Pensando bem, talvez a melhor tradução para “designer” fosse “demiurgo”. Mas pouca gente sabe o que é e leitor não gosta de ter que pesquisar no dicionário. E a gente precisa pensar no leitor. Principalmente no leitor.

Complicado isso de traduzir, viu?

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


5 Replies to "Não se pode servir a dois senhores"

  • Danielle Steffen Sanchez
    07/07/2017 (1:36 am)
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    Vixi, mas ficou bom! Eu gostei. Mas sempre a pulguinha que incomoda perguntando se não dava pra colocar outra ´palavra no lugar.
    Mas águas passadas não movem moinhos.

  • Guilherme
    06/07/2017 (4:29 pm)
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    Isso me lembra o paradoxo do Jegue de Buridan. O filósofo francês Jean Buridan dizia que quando um homem fosse confrontado com duas ações igualmente moralmente boas, seria impossível escolher racionalmente qual curso seguir, até as circunstâncias mudarem e o curso melhor ficar claro ou até que fatores fora da racionalidade impulsionassem o homem a um determinado curso de ação.
    Outros filósofos da época satirizaram a afirmação de Buridan dizendo que tal afirmação era equivalente a dizer que um jegue, se colocado entre duas pilhas de feno igualmente apetitosas e equidistantes, acabaria morrendo de fome pela impossibilidade de escolher entre as duas.
    A figura do Jegue de Buridan representa a incapacidade de se decidir racionalmente entre dois cursos de ação igualmente atraentes/bons.

    Neste exato momento sinto-me como o tal Jegue Filosofal, incapaz de decidir se traduzo “hermit” como “ermitão” ou como “eremita”. O nobre colega poderia me dar alguma luz nesse sentido?

    • Danilo Nogueira
      06/07/2017 (5:16 pm)
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      Depende do contexto e minha opinião, aqui como em qualquer outro lugar, vale tanto quanto as outras.

  • Roger Chadel
    06/07/2017 (12:58 pm)
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    Acho que se o autor quisesse dizer “criador” teria usado “creator”, que é o termo usado na Bíblia. Para mim, acho mais que ele queria falar de projeto, concepção.

  • Raquel Sallaberry
    06/07/2017 (9:59 am)
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    Eu pensei em diagramador que aí está para deixar tudo organizadinho (tem exceções… muitas exceções) e acredito que o gerente do universo, um cargo divino da mais alta importância, certamente deve (ou tenta, pois lidar com humanos não é fácil) manter tudo no seu devido lugar.


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