O cliente quer um resumo

Sou velho e velho gosta de contar histórias. Espero que minhas histórias tenham alguma utilidade para você.

A de hoje é o seguinte: o cliente me manda um e-mail, dizendo que precisa de meus préstimos para um serviço particular. Cliente pedindo serviço particular é sinal de perigo. Ou querem serviço de graça, ou a preço de banana. O e-mail era cheio de elogios e dizia que contava comigo. Cliente elogiando é sinal de perigo: quer jogar com a nossa vaidade, para obter serviço de graça ou a preço de banana. Quando diz que que conta conosco, pior ainda. Para piorar ainda mais, diz que é para a escola. Que é que é que eu tenho com isso, meu São Jerônimo? Quer um desconto? Olha, por ser para a escola, deveria até custar mais, ouviu? Porque tem que ser no capricho. Mas quem diz que é para a escola, quer serviço de graça ou a preço de banana.

O problema era o seguinte: a mulher (dizia ele que era) dele estava na faculdade e o professor de não sei que raio de matéria tinha pedido, como trabalho de bimestre, trimestre, semestre ou seilaoquemestre, o resumo de um livro que só existia em inglês. Ao menos era isso que o cliente dizia, mas me pareceu meio esquisito. A mulher dele, além de ser meio crua de inglês, andava meio falta de tempo, com isto, aquilo e mais aquele outro e tinha pedido a ele que entrasse em contato comigo para ver se eu não faria um resuminho para ela. Não precisava ser muito longo. Umas três ou quatro pagininhas eram o suficiente. Qualquer tradutor sabe que quando o cliente usa diminutivos, está, na verdade, querendo serviço a preço de banana. Dois diminutivos consecutivos, então, são sinal de perigo. É preço de banana na xepa da feira.

Aí, temos três aspectos: o ético, o técnico e o econômico.

Do ponto de vista ético, a coisa é complicada.

Quando me pedem trabalhos “para a escola”, sempre fico com um pé atrás. No início de carreira, traduzi vários artigos para um doutorando, que usou meu trabalho para embasar sua tese. Não me arrependo: a tese citava os artigos direitinho.

Um outro me pediu a tradução de um livro sobre auditoria de bancos. Descobri, depois e para meu desgosto, que ele tinha dado uma ajeitada no meu trabalho e apresentado como coisa sua, calando o bico sobre o fato de ser tradução de um texto americano. Sem querer, fui cúmplice de uma fraude acadêmica. Já faz tempo, isso, o crime deve ter prescrito.

Quer dizer, há traduções para a escola e traduções para a escola.

Do ponto de vista técnico, resumir e traduzir são coisas diferentes não é por eu ser tradutor que tenho competência para resumir o texto. É, também, uma grande responsabilidade: decidir quais são os pontos principais do texto – ou, melhor dizendo, quais os pontos que a cliente ou seu professor considerariam principais. Imagina se o professor acha que eu não ressaltei os pontos mais importantes e a aluna tira nota baixa? Com que cara eu vou ficar? Prefiro não arriscar.

Por fim, temos o problema econômico. Fazer um resumo toma um tempão, mas, se eu fosse tentar cobrar do cliente as horas gastas para digerir aquela tralha toda ele ia me perguntar, entre surpreso e assustado: “Tudo isso por três pagininhas? E para a escola, ainda por cima?”

Pensando bem, achei melhor dizer que não fazia resumos. O cliente ficou zangado, nunca mais me procurou, mas acho que foi melhor assim.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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