O estranho caso do teste pago

Nossa colega Alfa enviou seu currículo para uma agência e recebeu a proposta de fazer um teste. O teste era a revisão de um uma tradução automática de 22.000 palavras, no prazo de dois dias, por R$ 0,01 por palavra. Alfa descobriu que nossa colega Beta, sua amiga, tinha também enviado currículo para a agência e recebido proposta praticamente idêntica, com a diferença de que o texto a revisar era outro capítulo do mesmo livro. Desconfiada de que se tratava de uma trama para conseguir a tradução de um livro inteiro quase que gratuitamente, Alfa postou uma mensagem em uma lista de tradutores, gerando uma longa fieira de comentários. Até eu postei o meu, mas tive de abandonar a discussão porque estava atulhado de trabalho. Um dos comentaristas foi nosso colega Omega, que se identifica como proprietário da agência.

Estou usando nomes fictícios aqui não para proteger a identidade de ninguém, visto que a discussão foi mais que pública, com acesso fácil para os mais de dois mil assinantes da lista trad-prt. Quem não é assinante, pode se inscrever grátis e vai ganhar acesso quase imediato aos arquivos. Os nomes fictícios são para podermos restringir a discussão aos fatos, sem fulanizações.

Não enviar CV sem antes obter referências da agência solicitante foi uma das recomendações. O objetivo era evitar que agências mal intencionadas fizessem mau uso das informações. É inócuo: nossos CVs voam por aí, de mão em mão e eu já recebi mais de uma proposta de gente que tinha o meu sem que eu jamais o tivesse enviado a àquela pessoa. Sem contar o fato de que muitos de nós têm CV na Internet.

A remuneração do teste atraiu atenção por ser baixa. Reclamaram de um centavo por palavra. Entretanto, o que me surpreende é o terem oferecido remuneração. Por que alguém pagaria por algo que pode obter grátis? O mundo está cheio de gente disposta a fazer testes para tradutor sem ganhar nada. Será que a agência ficou boazinha, agora? Já deveria dar margem a uma que outra perguntinha.

O porte do teste é uma questão ainda mais interessante. Para dizer a verdade, acho que todo teste para o tradutor fazer em casa, grande ou pequeno, é bobagem. É mais que comum o candidato a emprego pedir “uma olhadinha” a um colega e o que a agência recebe é o teste do colega, não do candidato. Mas, enfim, as agências usam o teste como aquela famosa e provavelmente apócrifa história do homem que deu Sal de Fructa Eno para o filho que quebrara a perna: alguma coisa tinha que fazer e fez o que lhe era possível. Mas o porte do teste surpreende. Eu certamente recusaria um teste desses. Faço testes e a maioria deles fica em torno de 250 palavras, alguns um pouco maiores. Jamais fiz um teste de mil palavras. Maior que isso, nem pensar.

O tipo de teste é ainda mais estranho. A colega se candidatou a um lugar de tradutora, não de revisora, ao que tudo indica. E, mais que isso, não a revisora de tradução automática. O valor da tradução automática é questão controversa, mas podemos ter como certo que o sistema só funciona mesmo com textos de redação controlada, processados por programas de alta qualidade, devidamente “ensinados” por quem entende do riscado. Esses programas não se baixam com e-mule nem se compram no supermercado. Além disso, “ensinar” um programa desses é tarefa para cachorro grande. Revisar 22.000 palavras traduzidas automaticamente assim, a seco, em dois dias é tarefa hercúlea, uma verdadeira limpeza dos Estábulos de Áugias. Se a Alfa e a Beta, nessas condições, conseguem produzir algo que preste, são duas heroínas. Quer dizer, mais um motivo para recusar o teste.

A agência ia usar o resultado do teste? Não sei. Omega diz que ele tem lá seus métodos de selecionar tradutores e quanto a isso não deve satisfação a ninguém, no que está totalmente certo. Como ele seleciona tradutores é problema dele, não meu. Não gosto que se metam na minha vida, procuro não me meter na dos outros. Por outro lado, o tal teste era remunerado e, no meu entender, o pagamento, por pouco que seja, dá o direito de usar o teste como quiser, SALVO SE tiver explicitamente prometido não fazer uso comercial do material recebido. Na verdade, embora eu não saiba exatamente onde Omega queria ir, parece que tudo não passou de uma artimanha algo simplória para conseguir uma tradução barata. Há outras, muitas delas usadas por gente que a maioria dos tradutores consideraria honesta. Já mil vezes me pediram um desconto porque é o primeiro serviço e queremos testar sua capacidade, não tem fins lucrativos, o orçamento estourou, vai vir mais serviço depois, é para mim, é para minha tese e o que mais seja. Para mim, a agência que paga pouco por um serviço a pretexto de ser um teste não é nem melhor nem pior que os espertinhos acima – SALVO SE TIVER EXPLICITAMENTE GARANTIDO QUE NÃO VAI REUTILIZAR O SERVIÇO.

Mas, a bem dizer, simplória como é, quase funciona com a Alfa e a Beta e talvez tenha funcionado com outros. Espero que você escape dessas.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "O estranho caso do teste pago"

  • Danilo Nogueira
    17/07/2009 (12:02 am)
    Responder

    Tradutores têm, sim, ataques de estrelismo e egolatria. Já vi mais de um ofendido por que lhe pediram um teste. Mas aqui não vi problemas de ego.

  • Anonymous
    16/07/2009 (8:03 pm)
    Responder

    Certa vez, fiz um teste numa agência de tradução (para estagiar) e uma pessoa de lá responsável pela parte do atendimento me disse que é muito difícil lidar com o ego dos tradutores. Fiquei quieta, mas na hora imaginei o que fosse.

  • Anonymous
    25/12/2007 (3:24 pm)
    Responder

    Eu já caí nessa do teste e dou uma sugestão:
    Se quiserem fazer mesmo o bendito, escolham uns parágrafos e circulem-nos em vermelho.
    E os editores que se danem com o resto.

    Stella


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