Falantes nativos

A colega americana me perguntou quem revisava os artigos que eu escrevia para o Translation Journal. Foi um dos maiores elogios que recebi na minha vida, porque isso queria dizer que ela achava meu inglês muito bom. Não que não tenha seu sotaquezinho, porque tem, mas para escrever textos originais dá e ainda sobra um pouco de troco.

Escrever um original exige menos recursos linguísticos do que traduzir. Quando escrevia aquelas coisas para o Translation Journal, escrevia o que me dava na telha e contornava as minhas deficiências dizendo só o que achava que sabia dizer direito.

Para traduzir, a coisa é diferente, porque estamos constritos pela camisa de força do pensamento e do estilo do autor. Quer dizer, temos que escrever o que ele escreveu, não o que queremos escrever. É mais complicado do que parece e, por isso, já recusei muito serviço porque achei que meu inglês não ia chegar lá – o que causou certo espanto em alguns colegas, da tribo do “caiu na rede é peixe”.

Num caso, recomendei uma colega americana, dona e senhora da área, que tinha um excelente inglês, conhecia muito bem português e, além de tudo, era boa tradutora. Porque não adianta ter nascido lá e ser analfabeto de pai e mãe, como alguns dos native speakers que vi cometendo erros que eu não cometeria.

Eles erram, sim, também, e erram muito. Ter nascido lá não é garantia de que escreve direito. Ou você acha que é só brasileiro que escreve errado? Também precisa entender bem português, o que nem todos entendem. Uma vez, uma agência inglesa me pediu para conferir uma tradução para o inglês, feita por uma das tradutoras lá deles. O inglês da mulher era suculento, uma delícia de ler, mas encontrei dezoito erros de interpretação do português em menos de 2.000 palavras. E era um um original muito bem escrito, por um redator profissional.

O pior, mesmo, é o sujeito que não nasceu para traduzir. Tem muitos. Já vi traduções para o inglês, feitas por ingleses, que tinham mais literalismos do que eu me permitiria cometer. O cara escrevia inglês direito, entendia português, mas na hora de traduzir, negava fogo, o coitado.

Por outro lado, um amigo americano soltava os cachorros em mim porque eu traduzia pareceres jurídicos sobre matéria tributária para o inglês, reclamando, aqui e ali, do meu sotaque. Argumentei com ele que, no caso, era mais importante a clareza do conteúdo do que o estilo e encontrar algum nativo que botasse o engrimanço advocatício em inglês de gente era meio complicado, ao que ele respondeu com um nananinanão terminante: há certas coisas que se não fazem e ponto final.

Minha vingança veio quando um cliente dele pediu que traduzisse um texto de sua área de especialização para o português. Ele argumentou que tinha nascido na Califórnia, ao que o cliente respondeu que só ele entendia aquela terminologia, o que era verdade. O português do meu colega era bem piorzinho do que o meu inglês. Não que ele fosse burro, mas porque ele, como tantos anglófonos, não tinha se interessado em aprender a escrever português direito. Mas fez lá uma tradução, com um portuguesinho de pé quebrado e o cliente ficou satisfeito. Essa, a meu ver, é a prova real: o cliente, falante nativo da língua de chegada, conhecedor da área, ficou satisfeito. Se tivesse que publicar, tinha que revisar, mas era para uso interno e, portanto, estava bom demais. Então, meu amigo podia dormir descansado.

Em outras palavras, é importante ser falante nativo, mas nem de longe necessário nem suficiente.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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