Que vai ser de nós com a tal da crise?

Estão todos afoitos e aflitos com a tal da crise mundial. Fala-se muito nos grupos de tradutores, mas, se nem o pessoal das finanças está entendendo o que se passa, imagine então nós!

A turma que trabalha muito para o exterior, mistura a alegria de ver o dólar subindo com o medo de ver os clientes falindo. Muitos que trabalham para agências brasileiras estão em situação parelha, porque muitas agências brasileiras nada mais fazem que coletar serviços no exterior e repassar por aqui. Muita gente está apavorada porque não importa o que aconteça neste mundo, as agências e os clientes finais vão alegar que não é possível pagar um tostão a mais do que a fortuna que já estão pagando e vão citar os casos de gente que está pagando ainda menos que eles e conseguindo excelentes tradutores. Sem contar os que estão negociando a compra daquele programa maravilhoso que traduz com perfeição 50.000 palavras por minuto.

Pavor sempre leva a cortes desnecessários nos preços. Você geralmente cobra dez, o cliente liga e você já vai falando em nove por via das dúvidas, o cliente percebendo a insegurança mente que tem um orçamento por oito e você baixa para sete. Aí o cliente agradece e, todo pimpão, liga para um concorrente dizendo que você pediu seis.

A rigor, ninguém sabe o que vai acontecer com nosso mercado – que pode até sair beneficiado pela crise, sabe-se lá. Entretanto incerteza incomoda, machuca, consome nossas forças. Não pense você que não estou aflito. Se você espera que eu mostre o caminho, vai se decepcionar. Eu também estou procurando. Posso, no máximo, dizer o que eu estou fazendo.

Primeiro, praticamente não tenho dívidas. Cada vez que vou sacar dinheiro no caixa automático, o banco gentilmente me oferece um empréstimo, para comprar mil coisas maravilhosas, oferta a que respondo com uma recusa igualmente gentil mas firme. Alguns fornecedores me dão a opção de parcelar no cartão de crédito, sem juros. Ótimo, melhora meu fluxo de caixa. Mas a fatura de cartão de crédito é zerada no vencimento. Saldo bancário sempre no preto. É preferível não gastar hoje que chorar amanhã; fazer um sacrifício agora a ter um desgosto depois.

Do lado profissional, a busca é e sempre foi a prestação de um serviço melhor que o da concorrência, fazer o que os outros não fazem, ou não fazem bem. A especialização, o equipamento. Principalmente, o uso do equipamento. Até hoje fico bestificado com a quantidade de colegas que não têm um simples Wordfast e, mais ainda, com a quantidade de colegas que têm Wordfast e se limitam a aplicar as funções mais básicas do programa. Ou com os que pensam que, tendo um Wordfast, têm tudo.

Diversificar a clientela também é essencial. Todo veterano já passou mais de uma vez pelo desgosto de ficar desarvorado com a perda de seu melhor cliente. Aquele cliente magnífico, que mandava muito serviço e pagava bem e sempre em dia. O grande cliente é seu maior risco, porque você se torna dependente dele. Hoje, toda satisfeita, você diz que a Alpha Inc. paga todas as suas despesas; amanhã, a Alpha fecha ou arranja outra tradutora e você chora porque não tem como pagar o supermercado.

Nas situações de crise, ganha quem for mais hábil, quem, em vez de perder tempo chorando e reclamando, investir seu tempo em aperfeiçoamento e busca de novas oportunidades. E quem sabe que para tudo há um limite e sabe dizer “não” quando esse limite é ultrapassado.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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