Retorno negativo

Receber retorno negativo é horrível.

Você entrega a tradução, vem o revisor ou um funcionário do cliente e desce a lenha. Sei, porque já aconteceu comigo – e não foi uma só vez. E o pior é que muitas vezes, a paulada é merecida.

Também eu, atuando como revisor, dei retorno negativo sobre mais de uma tradução. Atitude antipática?  Sim, muito. Mas não me arrependo.

Às vezes dei porque minha ordem de serviço obrigava; outras vezes, reclamei por achar que não me cabia a obrigação de revisar lixo tradutório, gastando um tempão que podia usar fazendo outro serviço e ganhando mais dinheiro – e, ainda por cima, ficar de bico calado. Outras vezes, ainda, por achar que, como profissional, era a mim que competia avisar ao cliente que ele estava gastando dinheiro bom para pagar serviço ruim.

Uma vez, o cliente, uma agência americana em que ninguém sabia português, argumentou que a tradução tinha sido feita por um profissional que sempre tinha prestado serviços da melhor qualidade. Depois de uns tantos vais e vens, concluímos que ou o tradutor tinha repassado a tradução a um terceiro, sem contar ao cliente – o que é mais comum do que gostaríamos de admitir – ou estava num dia excepcionalmente ruim, o que pode perfeitamente ser verdade. Por isso, a gente não critica o tradutor, critica a tradução, o que é muito diferente. O tradutor não foi dispensado, mas foi advertido e espero que tenha criado juízo.

Quando a gente recebe retorno negativo, a tendência é contra-atacar, acusando o revisor de falta de ética por criticar um colega e mais o escambau a quatro. Dá até para entender, mas me parece a postura errada. O certo é ver o que se pode aprender com a as emendas, ver se não há, realmente, correção de erros; ou, talvez, se algumas trocas de “seis por meia dúzia” não tornaram o texto mais fluido e não deveriam começar a fazer parte do nosso repertório de  soluções.

Isso não quer dizer que todo retorno negativo seja do bem. Porque tem revisor que emenda só para mostrar serviço; tem revisor que emenda só para dar largas às suas birras pessoais e, inclusive, tem revisor que emenda errado, como aquela filha de Belzebu, à qual já me referi várias vezes, que botou acento grave em todos os “a” isolados de um texto meu, produzindo joias como “À escola e à padaria ficavam à menos de duzentos metros”. Claro, aí, eu contra-ataquei, restauram meu texto e a ela perdeu o cliente. Você acha que eu agi mal?

Quer dizer, cada caso é um caso e a gente não pode generalizar.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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