Sou um tradutor das antigas

(Este artigo é o primeiro de uma série sobre tradução automática, que prometi a meus colegas do grupo Tradutores, Intérpretes e Curiosos.  Os restantes, serão publicados durante o decorrer da semana. Espero que você goste.)

Sou um tradutor das antigas.

Quando comecei, em 1970, datilografava minhas traduções numa valente Olivetti 44. Muitos tradutores trabalhavam com caneta e papel almaço. Um dia, perguntei a um deles por que não usava máquina de escrever. Respondeu, altivo: “porque sou tradutor, não datilógrafo – nem sei usar esse troço. Tradução é tradução, datilografia é datilografia. Jamais vou usar máquina de escrever.”

Quando comprei uma máquina de escrever elétrica, me chamaram de doido: traduzir com máquina mecânica era o modo “certo” e o custo da elétrica não era justificado pelo que a gente ganhava como tradutor. Jamais usariam máquina de escrever elétrica.

Tempos depois, acho que lá para 1975, em um encontro de tradutores na falecida Faculdade Ibero-Americana, onde se ministrava o curso de tradução pioneiro em São Paulo, explicaram para mim, que tradução se fazia à mão e que máquina de escrever talvez até pudesse ser usada para tradução técnica, porque era muito repetitiva, mas jamais para tradução literária. Jamais usariam máquina de escrever.

Lá para 1984, comprei meu primeiro computador, um possante Microengenho2. Perdi um serviço por ter explicado ao cliente, orgulhoso, que usava um computador. Para o cliente, tradução feita à força de computador não podia funcionar – e isso não se discutia. Nem quis ouvir minha explicação de que quem traduzia era eu, que usava o computador como processador de texto. Jamais aceitaria serviço feito em computador.

Na mesma época, pessoas que esposavam correntes filosóficas diferentes desse cliente me contaram que já havia um programa de computador que traduzia bem e que só faltava dar uma limada numas arestas. Tradução, como meio de vida, estava na agonia. Jamais embarcariam nessa canoa furada de traduzir profissionalmente.

Numa mesa redonda na Ibero, um tradutor conhecido na época, riu, sarcástico dessa coisa de escrever usando computador, informou que tinha estudado datilografia e, modestamente, adicionou que tinha o hábito de pensar antes de digitar e, por isso, trabalhava com uma Olivetti de margarida (diga-se de passagem, uma excelente máquina). Jamais usaria um computador.

Na década de 1990, levei bronca de colegas porque entregava serviço em disquete. O certo – diziam eles – era imprimir o serviço em papel A4, usando suas poderosas impressoras matriciais, e entregar a pilha de papel ao cliente. O cliente, se quisesse, que mandasse redigitar em seu formato e papel timbrado.  Entregar em meio eletrônico? Jamais fariam isso.

Na mesma época, fui repreendido por manter a diagramação do original em minhas traduções. Tradução, diziam eles, se fazia em lauda, com espaço duplo, dois centímetros de margem inferior e lateral, três centímetros na superior. Jamais iam fazer essa coisa de diagramação do cliente.

Em 1997, numa palestra na Associação Alumni, um participante me perguntou se eu conhecia algum tradutor sério que usasse TRADOS. Outros me explicaram, detida e sarcasticamente, que não usavam TRADOS, porque, para o tipo de trabalho que faziam, não servia. Podia servir para lista de peças, balanço, essas coisas. Porém jamais usariam para o serviço que eles faziam.

Agora, me veem dizer que jamais vão trabalhar com tradução automática – este é o “jamais” do dia. Passará, como terão passado os outros jamaises.

Porque a tradução automática veio para ficar e nem pela sua chegada nossa profissão vai acabar. Vai, sim, mudar muito, como muito mudou desde que começamos a escrever em papel, em vez de em pergaminho. E a “turma do jamais” vai ter que escolher outro assunto para continuar jamaisando, porque, de jamaisar, eles jamais vão deixar.

Volto ao assunto amanhã.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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