Trabalhar em casa é complicado

A discussão sobre remuneração, aqui abaixo, levantou a história do trabalhar em casa. Isso de trabalhar em casa, como faz a maioria de nós, é difícil de explicar aos nossos parentes. A maioria deles nunca entende. Minha mãe, meu pai e meu sogro morreram sem entender. Minha sogra está lentamente perdendo o contato com o mundo real e ascendendo ao nirvana sem tampouco entender.

Desagradável, isso. Tenho muito orgulho do que faço, tenho clientes de elite, faço serviços que deixariam muita gente boa assustada, mas à minha volta há uma porção de gente que me achaum fracassado, porque não tenho emprego. Quando a doença da minha mulher demandava uma fortuna em médicos e medicamentos (sem contar o táxi), fortuna essa que eu paguei com meus próprios recursos, a sensação geral na família foi de alívio e surpresa: todos estavam esperando pedidos de ajuda financeira que jamais vieram, ninguém entendia de onde eu conseguia tirar tanto dinheiro.

Só não me ofereceram emprego de motorista, porque sabem que não dirijo. Enviam-me alunos de inglês, essas coisas.

Também é complicado explicar à parentela que você está trabalhando. TRABALHANDO, ENTENDE? E que tem horários mais apertados do que qualquer pessoa que bata ponto.

Mesmo os colegas, muitas vezes, se esquecem disso e acham que, porque eles estão sem serviço, eu devo estar disponível para “trocar uma ideia”. Também tem os que ligam para me resolver alguma dúvida de tradução. O tratamento que eu dou aos que me telefonam me granjeou a fama de antipático em muitos círculos tradutórios. Acho telefone muito invasivo, que não cabe a um tradutor usar para se comunicar com utro, salvo se os dois forem muito amigos.

Mas é bem melhor isso que ter que encarar o trânsito.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


10 Comentarios em "Trabalhar em casa é complicado"

  • Maria Clara
    18/03/2010 (5:42 pm)
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    Danilo, me identifiquei muito com este seu post! Como é o caso da Luciana aí em cima, todos os meus colegas de turma têm emprego em grandes empresas, estão sempre viajando a trabalho e tals…. E praticamente nenhum deles tem ideia de que eu trabalho tanto quanto eles — ou talvez até mais. Dormir até às 10? Isso é coisa de quem não faz nada!! Mas ninguém consegue imaginar que eu trabalho até às 2 ou 3. É um estilo de vida diferente demais do que se pode conceber. E eu não troco por nada!

    Agora até que tem melhorado, mas até pouco tempo atrás, sempre aparecia algum aluno de inglês que alguém enviou, sabe, para “dar uma forcinha, coitada, não tem emprego”. Sempre recusei todos gentilmente e deixei algumas pessoas perplexas com tamanha ingratidão. Mas não me arrependi nenhuma vez. Aprendi que a gente tem que cortar certas coisas logo, senão não tem sossego nunca. Antigamente eu ficava chateada, mas agora eu até me divirto com as coisas. Em algumas situações, além de antipática, ainda estou ganhando a fama é de esnobe. Por exemplo, quando me dizem “vou embora, amanhã acordo cedo…. Você não horário, não tem compromissos (falta só dizer que não tenho prazos, que sou uma irresponsável, à-toa na vida) pode dormir até quando quiser”, eu respondo “pois é, querido, só vou começar a trabalhar quando você estiver almoçando; e o melhor: descalça”. Raramente a mesma pessoa faz esse tipo de comentário de novo. E devagar vão se acostumando, embora eu ache que não vão entender nunca.

  • swmith
    17/03/2010 (3:25 pm)
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    Queria saber sobre como se especializar em áreas tecnicas como por exemplo medicina.
    Gostaria de saber se há cursos especificos para cada areazinha técnica o que acredito que não,ou se é tudo na raça mesmo.
    Tenho muito interesse em trabalhar com tradução de livros de medicina.

    • danilo
      24/05/2010 (10:29 am)
      Responder

      Existem duas possibilidades: ou você tem uma carreira anterior, por exemplo, medicina, caso em que naturalmente vai se especializar nessa área; ou tem uma formação em letras, caso em que vai entrar no mercado “sem especialização”. No segundo caso, é realmente o mercado que especializa você. É um processo estranho, cheio de surpresas e “sincronicidades”, sucessos e fracassos. Foi assim que eu virei especialista em contabilidade e coisas afins. Fui me entendendo com o assunto, ao passo que, em outras áreas, dei mais de um tropeção. Moral da história: alguns clientes satisfeitos; outros, nem tanto. Os satisfeitos voltavam e me tornaram um especialista.

  • Emilio Pacheco
    16/03/2010 (3:24 pm)
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    É por isso que eu nunca deixo o MSN ligado quando estou trabalhando. As pessoas sempre presumem que, se meu nome aparece ali, é porque estou disponível para conversar. Sei que posso aparecer invisível, mas prefiro nem ligar.

  • Babi
    16/03/2010 (12:10 pm)
    Responder

    Uh bota complicado nisso, entendo como é não ser compreendido e não darem valor ao trabalho que fazemos só por não sairmos de casa e não sermos engenheiros, médicos, advogados e outras profissões de prestigio, não que a nossa não seja… sou tradutora na firma de auditoria onde trabalho e faço a revisão dos relatorios, mas como o salário não chega faço traduções extras para um tradutor amigo e para alguns clientes que me procuram de quando em vez para traduzir Cv, certificados, etc. Havendo vezes que fico trancada em casa a partir das 18 horas quando volto do trabalho e fins de semana também. só meu companheiro me entende pois por várias vezes me encontrou em casa trabalhando as 4 da manha quando ele voltava da farra. mas o resto parece que não dá valor algum. uma amiga minha chegou a dizer: achas que trabalhas mais que quem!? e eu so me ria e me desculpava pois não podia sair com ela para o tal passeio, discoteca, festa, almoço de familia, etc. porque tinha que terminar um trabalho… E Danilo entendo muito bem isso. as vezes fico com vontade de largar tudo e trabalhar em casa, mas dá um medo, pois há semanas que não aparece trabalho algum e por isso prefiro ter uma renda extra e garantida a todo final de mes.

  • Cecília
    14/03/2010 (9:59 am)
    Responder

    Puxa, Danilo,

    Que bom saber que esse mal atinge muitos, mesmo os que estão há tanto tempo na profissão!

    Como comentei no outro post, minha sogra acha que eu fico em casa pra ajudar meu marido. Toda vez que ele viaja a trabalho, ela diz: “Ah, então essa semana deve ter dado pra vc trabalhar bastante!”. Eu já fico meio (ok, muito) irritada, mas respondo com toda calma: “Na verdade, eu trabalho muito MESMO quando ele está na cidade. A presença dele não interfere no meu ritmo de trabalho”.

    Ela ainda não entendeu e, a julgar pelas experiências compartilhadas até aqui, nem vai. Paciência… E quanto aos que acham que somos pobres, paupérrimos, tanto melhor. Terrível deve ser sustentar fama de rico, sem o ser…

    E vamos que vamos… Trabalhar de shorts e camiseta aos domingos é uma das minhas grandes alegrias, hahaha…

    Abraço.

  • Luciana Nadalutti
    12/03/2010 (11:01 pm)
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    Oi Danilo,

    em primeiro lugar aproveito esta minha primeira participação no seu blog para te parabenizar: seja pela pertinência do conteúdo, que me ajuda (e diverte) muito, seja pela franqueza e objetividade. Sou muito grata, mesmo, a esta fonte generosa de inspiração e referências para a profissão.

    Me identifiquei demais com este post: sou parte de um casal que trabalha em casa (meu marido é músico e compositor). Somos ambos alvos dos mesmos preconceitos que você menciona no post: não temos emprego de 9 às 17h, logo não somos bem-sucedidos, nem temos grana, e muito menos estamos dando duro na vida!

    Eu sofro ainda mais porque meus colegas de faculdade de economia trabalham todos, sem exceção, em grandes empresas. Eles não entendem se fico em casa no fim de semana para me preparar para um evento (sou intérprete de formação, mas comecei como tradutora), se o trabalho “começa mesmo” dali a 10 dias. Não entendem que preciso assistir CNN em paz para treinar o ouvido e me atualizar: como assistir TV pode ser trabalho (essa falha meu marido ainda comete de vez em quando…)??? E minha mãe se ofende quando digo que não posso ir visitá-la porque tenho trabalho!
    Dei boas risadas… e me lembrei do meu pai, que é professor universitário. Eu fiquei chocada ao ver como ele tratava os alunos/orientandos que batiam à porta dele: mandava voltar com hora marcada (tipo 11h40 da quinta-feira da semana seguinte!). Se ele não desse esta dura nos alunos, eles nem iam bater antes de entrar, e trabalhar seria impossível. Antipatia? De modo algum: valorização do seu tempo e trabalho, nada mais.
    É isso, abraço para você e para Kelly também!

  • Raquel Schaitza
    12/03/2010 (10:17 pm)
    Responder

    Danilo,

    Tudo que você disse também vale para mim, sendo as únicas exceções os filhos quando eram pequenos. Achavam que o pai, que sai de casa cedo, não vem para almoçar e só volta à noite, não trabalhava. Ficava passeando pela rua, talvez, longe da vista dos filhos. Já eu era a única que trabalhava, na concepção deles, porque me viam trabalhar o dia inteiro no escritório em casa! Imagino que os dias em que eu saia para uma interpretação simultânea eles viam como meus “dias de folga”. 🙂

    Raquel Schaitza

  • Rui Oliveira
    12/03/2010 (8:00 pm)
    Responder

    Pelo que estou a ver, o trabalho de tradutor é tão incompreendido no Brasil como em Portugal. Também trabalho em casa, também é raro o dia em que não tenho que fazer, também tenho prazos apertados e, no entanto, há pessoas, mesmo família próxima que acha que, por trabalhar em casa, estou disponível para tratar de algum assunto que elas não podem, porque têm um trabalho com horário fixo. Também não vêem o trabalho de tradução como um trabalho a sério. Enfim, ossos do ofício (mas não queria ter outra profissão).

  • Fabio
    12/03/2010 (12:30 pm)
    Responder

    Danilo, sobre esse negócio de tradutor telefonar a outro tradutor que nem conhece só para pedir dicas ou “trocar umas ideias”, isso já aconteceu um monte de vezes comigo. Uma vez, por exemplo, ligou um senhor do Brasil para aqui, na Alemanha, só para para me oferecer seus serviços de tradutor e ainda, aproveitando a oportunidade, me pedir dicas de como trabalhar com alemães. Cortei o papo na hora, ainda mais porque estava escrito muito claramente no meu site e blog que eu não contrato ninguém e nem estou disponível para papos.

    Outro caso foi de uma moça ilegal aqui na Europa que me ligou (a altas horas da noite) para perguntar como fazer para receber aqui pagamento de clientes no Brasil. Ela não disse que era ilegal, mas quem diz estar como turista mas mesmo assim trabalha no país e nem sequer pode abrir conta corrente só pode ser ilegal.

    Enfim, acho até normal receber contatos não-solicitados de gente que viu seus dados de contato na internet, mas um dado interessante é que essas pessoas que ligam se enquadram perfeitamente, como uma luva, na categoria dos “cenossão”. Quem não sabe ler não deveria ser nunca na vida tradutor. E quem não tem discernimento para saber que certas formas de contato com colegas são invasivas não deveria nunca na vida se meter com atividades profissionais como a tradução.

    Só para registrar: não sou contra o contato telefônico, mas sim contra a invasão. Mas acho que com as facilidades de comunicação na internet, o preço barato das ligações telefônicas e a falta de noção das pessoas, seremos obrigados a conviver com esse problema por mais um bom tempo.


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