Tradução editorial em Wordfast Classic

Preparei esta postagem para responder às numerosas alegações feitas por colegas que dizem ser impossível ou ao menos contraproducente fazer tradução literária e humanística usando programas de tradução assistida por computador, normalmente ainda conhecidos em português como “CAT tools” ou, coloquialmente, por “assistentes felinos”, “gataria”, “gataiada” e quejandos.

Contra fatos, não há argumentos; mas contra convicções arraigadas, não há fatos nem argumentos e aqueles colegas que se recusam terminantemente a usar essas ferramentas para traduzir vão continuar se recusando e pronto, acabou. Então, este texto se dirige aos colegas que ainda não se decidiram.

Vou falar do Wordfast Classic (WFC), um programa utilíssimo e avançadíssimo, hoje com seu prestígio abalado, porque só funciona quando o original está em MSWord. Como livros costumam ser traduzidos em MSWord, para o tradutor editorial, o WFC funciona à maravilha.

Muita gente ainda se refere a esses programas como programas de memória de tradução. É um ero. A memória de tradução, embora um componente importante, é, de todos os recursos do WFC, o menos importante. Sim, o WFC, como todos os programas de assistência felina, se iniciou como um gerenciador de memórias de tradução e glossários, mas hoje tem mil acessórios que facilitam a vida do tradutor.

Alguns colegas acham que a memória de tradução prejudica o serviço, porque, na opinião deles, cada novo livro é uma nova aventura intelectual, e é necessário apagar tudo o que se fez antes. Contradiz o que me disse um professor universitário, que também é tradutor, ao participar de um de meus cursos. Depois de uns vinte minutos de aula, exclamou: “joguei no lixo a experiência dos 35 livros que já traduzi”. Entretanto, se quiser fazer tabula rasa dos seus conhecimentos ao começar um novo livro, simplesmente crie uma nova memória para o livro e seja feliz.

Caso se arrepender e quiser recorrer à velha, é só usar o recurso de mesclar memórias, para juntar duas ou mais memórias em uma só. Se não quiser mesclar, mas não resistir a dar uma espiadinha para lembrar como é que você lidou com uma frase ou palavra no outro livro, consulte as memórias antigas, usando qualquer programa de edição de texto. Recomendo usar o Notepad ++, que é ótimo e grátis. Se não quiser instalar mais um programa no seu computador, é só clicar no nome do arquivo que o Windows abre pra você. Também pode simplesmente desprezar as sugestões da memória. Quem manda é você.

Quando seu livro estiver cheio de personagens ou lugares com nomes estranhos e difíceis de digitar, o WFC resolve seu problema: ao topar com uma palavra em maiúscula, ele se oferece para completar a palavra toda como estava no original, uma bênção quando você tem que traduzir algo sobre os feitos rei Pandukabhaya, por exemplo. Também pode adicionar ao glossário (o WFC permite usar até três glossários ao mesmo tempo), caso vá usar uma forma portuguesa do nome. Aí é só digitar as duas primeiras letras, que ele vai direto ao glossário. Digite “Pa” e ele sugere a Pandukabhaya de Anuradhapura.

Tem quem diga que os segmentos do WFC (mais ou menos equivalentes a um período), são curtos demais para traduzir. Ótimo, Alt PageDown une o segmento ao seguinte, quando você achar necessário e continua agregando até o fim do parágrafo. Há quem diga que prefere pensar direto em termos de parágrafos, o que também é simplíssimo, porque as configurações do WFC permitem oferecer um parágrafo de cada vez. Para segmentar por parágrafo, vá em Setup > General. Clique em End of segment punctuation para selecionar. Dê Enter, o que abre uma caixinha com pontuações de fim de segmento. Apague a lista toda. Daí em diante, a segmentação será por parágrafos. Acho horrível, mas eu também não gosto de jiló e tem quem adore.

Na hora de revisar, tem gente que acha que ver original e tradução juntos só atrapalha. Não reclame: aperte Ctrl , (apertar Control e vírgula, ao mesmo tempo), que o original desaparece. Quer dar uma consultadinha no original? Fácil: só dar Ctrl , (apertar Control e vírgula, ao mesmo tempo), que a situação se resolve.

Tudo isso, sem nem falar na “blacklist” que te avisa quando na tradução aparece alguma palavra suspeita, como “suado” (que talvez devesse ser “usado”) ou “peido” (onde deveria ser “pedido”). Não te impede de usar, porque, no seu texto, pode haver alguém suado que solte um peido – mas ao menos te adverte do perigo.

Quando traduzi meu primeiro livro usando WFC (o anterior tinha sido traduzido em máquina de escrever, em algum momento do século passado), o editor me advertiu contra os números errados (era um livro sobre história, cheio de datas e dados sobre exércitos e tal). Claro, não encontraram um erro de número no meu texto: se o texto diz 1918 e você escreve 2018, o WFC dá a bronca. Não te impede de manter o 2018 (o que pode fazer sentido, conforme o caso), mas pede confirmação. Também me advertiu contra os saltos, aquelas omissões de frases ou até parágrafos, um pesadelo para os revisores – mas quase uma impossibilidade para quem usa gatos em geral. Acho que eu sou o único dos tradutores dele que usava WFC.

Agora, se você ainda acha que não dá para traduzir texto sobre literatura ou humanidades usando WFC, leia isto.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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