Você aceitaria atualizar uma tradução antiga?

Vou contar uma historinha, como prelúdio a um artigo sobre cobrança de repetições na tradução, que vou publicar amanhã ou depois. A história é verdadeira e se passou este mês. Não tire conclusões apressadas: a análise do problema de cobrança de repetições vem na próxima postagem.

Meu cliente trabalha numa firma de treinamento. Um cliente dele tinha um caso para estudo, criado em inglês e traduzido para o português (por alguém que não eu), que gostaria de ver os instrutores do meu cliente apresentarem. O caso tinha sido testado na prática e, como resultado, o autor tinha resolvido mudar uma que outra coisa – ninguém sabia quanto, porque a pessoa já não estava mais na empresa. A versão atualizada em inglês tinha sido testada e o resultado tinha sido bom. Agora, o cliente do meu cliente, queria atualizar a tradução.

Meu cliente me perguntou se eu topava a parada. Sim, topei.

Primeiro, alinhei os dois casos originais (inglês e português). Para quem não sabe, “alinhar” significa tomar um texto e sua tradução e, dos dois, extrair uma memória de tradução. O trabalho é simples e me tomou menos de dez minutos. Em seguida, rodei a segunda versão do caso em inglês contra a memória criada, o que o programa fez sozinho e levou mais um par de minutos. Com esses dez minutos de trabalho, o programa que pretendia usar para atender a esses cliente, o WordFast Classic, quantificou o trabalho necessário.

Com base nessa quantificação, cotei um preço que passei ao meu cliente. Aliás, passei dois preços: um para simplesmente atualizar o texto anterior, o segundo para, além de atualizar o texto anterior, revisar o texto inteiro. O cliente optou pela atualização simples, sob a alegação (verdadeira ou não) de que o cliente dele queria manter toda a tradução anterior.

Fechado o negócio, rodei mais uma vez o inglês atualizado contra a memória, dessa vez no modo traduzir. A cada segmento (um “segmento” corresponde aproximadamente a um período) o WFC me dizia se correspondia em todo ou em parte a algo que já estava no texto anterior ou não. Com base nessas informações, fui atualizando o texto. No fim, apresentei ao meu cliente um trabalho que (1) onde o texto não havia sido atualizado, copiava exatamente o que o tradutor anterior tinha feito; (2) onde o texto tinha sido alterado, refletia exatamente as alterações feitas, para que eu fizesse as modificações necessárias no texto português; e (3) onde havia inserções do revisor, deixava um espaço em branco  para que eu inserisse a tradução. Minhas alterações foram claramente identificadas no texto final por um sublinhado. Meu cliente ficou satisfeito e eu recebi o pagamento combinado.

Do ponto de vista técnico, é isso: a simplicidade total.

E do ponto de vista ético, como fica? Alguns colegas dizem que nunca aceitariam um serviço desses, que ou eles traduzem o texto todo ou não aceitam o encargo. A esses colegas, proponho a historinha abaixo, esta aqui inventada por mim.

Um casal mandou construir uma casa a seu gosto e contratou os serviços de um eletricista para fazer as instalações correspondentes, tendo pago ao profissional o preço combinado. Anos depois, fizeram algumas alterações na casa, que resultaram na necessidade de fazer alterações na instalação elétrica. Como o profissional que tinha feito a instalação original não estava mais disponível, entraram em contato com outro e, como é natural, pediram um orçamento. Pergunta-se: o que vocês acham que esse segundo profissional deveria fazer: alegar que tinha de fazer toda a instalação de novo e cobrar pelo serviço integral, ou aceitar fazer só as modificações necessárias e cobrar por elas?

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


1 Comentario em "Você aceitaria atualizar uma tradução antiga?"

  • Roger Chadel
    20/02/2018 (2:00 pm)
    Responder

    Como sempre, muito bem escrito, elucidativo e agradável de ler. Mas, e sempre tem um mas, acho que a justificativa que você dá no último parágrafo não se aplica a traduções: em instalações elétricas é muito fácil ver se funciona ou não, é só ligar o que está conectado. Se não funcionar, ou provocar um curto-circuito, ou fizer cair um disjuntor, ela precisa ser refeita. Senão, fica como está. Já uma tradução precisa ter coerência, consistência e outros quetais. “O livro está na tabela” pode parecer esquisito, mas é uma tradução correta de “the book is on the table“. Se você não revisar o texto todo vai ficar, no mínimo, esquisito. Não é preciso ser radical e não aceitar o trabalho se não incluir a revisão do que não foi alterado, mas o cliente precisa saber do risco que ele está correndo.


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